Quem te viu, quem te vê – Como o PT virou uma máquina de arrecadar dinheiro e se tornou um partido como outro qualquer

No último capítulo do aclamadíssimo livro Por que as Nações Fracassam?, os autores Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Harvard) citam a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder no Brasil como um exemplo de evolução democrática, prenunciando o rompimento de um ciclo secular de concentração de poder e riqueza no país. Um partido com forte base em movimentos sociais e com razoável experiência em administrações municipais e estaduais estaria pronto para implantar as reformas necessárias para romper nossa tradição de extrativismo pelas elites política e econômica.

O livro de Acemoglu & Robinson foi publicado em 2012, quando o Brasil ainda dotava de grande prestígio no exterior. Desde então, uma espiral de crise política e econômica, combinada com um grande escândalo de corrupção, jogou por terra essa imagem positiva do país.

Este post tem a pretensão de apresentar uma explicação parcial para o fato de que Acemoglu & Robinson foram precipitados em atribuir ao PT essa capacidade de romper o círculo vicioso de concentração de poder e concentração de renda que impera no Brasil há séculos.

Meu argumento é que o PT não foi capaz de cumprir essa missão porque, para chegar e se manter no poder, tornou-se um partido como outro qualquer – disposto a tudo para receber mais dinheiro e, assim, financiar campanhas milionárias para vencer as eleições. Esse comportamento está na origem de seu fracasso como um partido reformador, tal qual Acemoglu & Robinson, bem como milhões de partidários e simpatizantes, esperavam dele. Reconheço que não se trata de um argumento original, mas demonstrar isto com números de arrecadação de campanha talvez seja.

Comparando o volume das doações de campanha nas últimas eleições, podemos verificar como o PT se tornou, a cada eleição, uma máquina de arrecadação de recursos junto ao setor privado para dar inveja ao PMDB e ao PSDB – partidos sempre apontados pelos petistas como “aliados do grande capital”.

Evolução dos 3

O gráfico acima demonstra como o PT arrecadou bem menos que o PMDB e o PSDB em 1998. A partir de 2002, quando se tornou uma alternativa viável de poder, passou a atrair recursos num patamar e num ritmo semelhante a seus principais concorrentes na arena política.

Mas a semelhança do comportamento do PT com o PMDB e o PSDB não reside apenas na capacidade de atrair mais dinheiro para suas campanhas. O perfil do financiamento privado do partido também foi alterado significativamente. Como em geral acontece com os partidos localizados mais à esquerda no espectro político, o PT tem uma grande base de filiados, militantes e simpatizantes que contribuem diretamente para manter o partido e financiar sua participação nas eleições. Sendo assim, seria de se esperar que as doações provenientes de pessoas físicas tivessem uma grande participação sobre o total arrecadado pelo partido. O gráfico a seguir, porém, mostra que, ao longo do tempo, as contribuições feitas por indivíduos vêm assumindo importância cada vez menor nas doações feitas ao PT.

PF sobre Total

O gráfico acima mostra que, depois de atingir um pico nas eleições de 1998, quando quase 70% da arrecadação do PT veio de doações de pessoas físicas, o perfil de arrecadação do PT vem mudando à medida que crescem as contribuições recebidas de empresas. Tomando as eleições de 2014, percebemos que o percentual de recursos provenientes de indivíduos no PT foi, inclusive, menor do que o observado no PMDB e no PSDB! Em outras palavras, o PT deixou de depender da ajuda de seus militantes e simpatizantes para pagar suas contas de campanha, uma vez que passou a receber grandes volumes de recursos provenientes de empresas – assim como geralmente acontece com os maiores partidos de centro ou de direita perante os quais o PT pretende se diferenciar.

Outra mudança radical no perfil de financiamento de campanhas do PT está justamente nas doações provenientes de pessoas jurídicas. Nos gráficos abaixo demonstramos o percentual de doadores localizados em cada faixa de valor de doações. Tomando as eleições de 1994, percebe-se que havia uma grande concentração no grupo de empresas que fizeram pequenas doações (no máximo R$ 10.000 por doador), o que destoava do perfil de PMDB e PSDB, com predominância de contribuições de valores muito maiores. Em 2014, porém, nota-se uma distribuição muito semelhante entre a arrecadação do PT e do PMDB e do PSDB, com a prevalência do grupo de pessoas jurídicas que doaram mais de R$ 100 mil para o partido.

Distribuição Percentual do Número de Pessoas Jurídicas que Contribuíram para as Campanhas do PMDB, PSDB e PT por Faixa de Valor de Doação

(Doações Totais, Exceto para Candidatos a Deputados Estaduais)

PJ 1994

PJ 2002

PJ 2014

Notem como, nos gráficos acima, o conjunto de colunas do PT foi tornando-se mais “achatado”, moldando-se às mesmas características do PMDB e do PSDB enquanto se passou das eleições de 1994 para 2002 (quando Lula vence as eleições presidenciais pela primeira vez) até chegar à campanha de 2014.

No próximo conjunto de gráficos, investigamos de onde vem o dinheiro utilizado pelos partidos de acordo com o valor das doações. Ampliando o foco para abarcar as doações de pessoas físicas e jurídicas, verificamos que o PT vem migrando de uma dependência equilibrada entre doações baixas (abaixo de R$ 10 mil por doador), médias (entre R$ 10 mil e R$ 500 mil por doador) e altas (acima de R$ 500 mil por doador) para um modelo concentrado majoritariamente nas altas doações (acima de R$ 500 mil por doador), tal qual o PMDB e o PSDB. Os gráficos abaixo mostram como isto se deu ao longo da história do PT rumo à Presidência da República:

Percentual de Arrecadação dos Partidos Segundo Faixa de Doações – PMDB, PSDB e PT

(Doações Totais, Exceto para Candidatos a Deputados Estaduais)

De onde vem 1994

De onde vem 2002

De onde vem 2014

Os números apresentados neste artigo demonstram como o PT, num período de 20 anos em que alcançou a Presidência da República por 4 vezes seguidas, tornou-se um partido com perfil de arrecadação semelhante ao de seu rival PSDB e de seu aliado (!?) PMDB. Na sua trajetória rumo à hegemonia na política nacional, o PT passou a depender cada vez menos de seus filiados e simpatizantes e cada vez mais de doações milionárias de grandes empresas para financiar suas campanhas – tal como fazem seus principais concorrentes.

Acredito que o modo de financiar suas campanhas está na raiz de uma política econômica que se mostrou bastante equivocada – vide os volumosos benefícios fiscais e empréstimos do BNDES concedidos nos últimos anos – e dos escândalos de corrupção que ganharam as manchetes dos jornais recentemente. Todos eles tinham como principais beneficiários justamente grandes doadores de campanha.

Acredito também que só iremos romper esse ciclo vicioso de extrativismo político e econômico que propõem Acemoglu & Robinson quando nossas instituições forem capazes de coibir partidos de governarem mirando seus financiadores de campanha, e não seus eleitores.



 

Nota 1: Os gráficos acima foram elaborados por mim a partir dos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral. O TSE permite a consulta na sua página na internet de informações desagregadas sobre doações de campanha de todas as eleições a partir de 2002. Para as disputas de 1994 e 1998, utilizo aqui os dados compilados pela equipe do cientista político David Samuels (University of Minnesota), que me forneceu os dados em resposta a um simples email, sem a intermediação de conhecidos em comum, autoridades governamentais ou celebridades acadêmicas, sem pedir nada em troca, apenas com um desejo de “boa sorte em sua pesquisa”. A ele meu muito obrigado, pelos dados e pelo exemplo notável – principalmente para quem conhece o meio acadêmico brasileiro.

Nota 2: Todos os dados foram corrigidos pela inflação medida pelo IPCA.

Nota 3: Como essas análises são reflexões ainda preliminares sobre achados da pesquisa de tese (veja as explicações aqui), seus comentários, críticas e sugestões são muito bem vindos, pois certamente vão contribuir para melhorar a qualidade da pesquisa.

 

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Tostines vende mais porque é fresquinho e é fresquinho porque vende mais: Doações influenciam resultado das eleições, mas resultado das eleições também afeta doações

Contribuições para determinados candidatos podem aumentar ou diminuir conforme suas chances de vitória se alteram durante a campanha eleitoral.

Eleição presidencial de 2014 dá vários indícios desse fenômeno.

Na última postagem (aqui) realizei um exercício, sugerido por Marcos Lisboa, comparando as doações de campanha recebidas pelos candidatos que ficaram “na tampa da beirada”, e não conseguiram se eleger por pouco, com as contribuições para aqueles que foram eleitos “raspando” nas eleições para o Senado e a Câmara dos Deputados entre 2002 a 2014. Ao isolar a comparação somente entre os candidatos que ficaram na margem entre serem eleitos ou não, conseguimos ter uma ideia mais clara de como o financiamento de campanha pode afetar o resultado da eleição.

Poucos minutos depois de ter publicado o texto, o colega de pós Rodrigo Badaró me enviou um email me alertando sobre uma falha no meu raciocínio: eu estaria sempre partindo da premissa de que as empresas aplicam seus recursos neste ou naquele candidato independentemente de suas expectativas quanto ao resultado da eleição. Na sua visão, os doadores calculam as chances de vitória dos candidatos e, a partir daí, decidem o quanto contribuirão para cada um. O problema que se coloca, nas palavras do próprio Badaró, é o seguinte: “Afinal de contas, o mercado tem o poder decisivo de eleger este ou aquele candidato? Ou haverá (também?) o sentido inverso: o mercado verifica os candidatos com maior potencial de vitória e investe neles (e, obviamente, cobra essa conta mais tarde)?

Em termos técnicos, a questão colocada é chamada de endogeneidade. Para exemplificar, seria como se, ao realizarmos um teste para solucionar o dilema de Tostines, investigássemos o efeito do frescor dos biscoitos sobre as vendas (testando a hipótese de que Tostines vende mais porque é fresquinho), sem levar em conta que um maior volume de vendas torna os produtos à venda mais frescos e crocantes (afinal, Tostines pode ser mais fresquinho justamente porque vende mais). Em outras palavras, Badaró questiona se o financiamento privado influencia as eleições ou se a expectativa do resultado das eleições influencia no financiamento privado para este ou aquele candidato.

Com relação ao teste realizado na última postagem, acredito que a chance de estar contaminado pela endogeneidade é bastante baixo. Como concentramos o foco apenas nos candidatos que ficaram na zona cinzenta entre ser eleito ou não, é muito pouco provável que as empresas tivessem a percepção das chances de cada um vencer a disputa. Além disso, não temos pesquisas sistemáticas para o Senado e principalmente para a Câmara, assim como o resultado final, no caso da eleição para deputado, depender dos votos angariados pelos partidos e coligações, além do desempenho individual de cada candidato. Sendo assim, acredito que os resultados apresentados no último texto não estão comprometidos pelo problema da endogeneidade.

Mas o legal dessa construção colaborativa da tese, com a publicação dos resultados preliminares neste blog, é que as questões colocadas me instigam a avançar a pesquisa na direção apontada pelos colegas. E então eu resolvi verificar se há indícios dessa endogeneidade numa situação extrema: as eleições presidenciais de 2014. A escolha por essa disputa baseia-se no fato de ter sido a eleição mais concorrida da história, com diversas mudanças de cenário desde o seu início. Além disso, as eleições presidenciais contam com um grande número de pesquisas de intenção de voto, que orientam o mercado para fazer suas escolhas sobre quem financiar nas eleições.

O gráfico abaixo apresenta a evolução das contribuições de campanha recebidos de pessoas jurídicas pelos três principais concorrentes à Presidência no ano passado: Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos, substituído por Marina Silva (PSB) após seu falecimento no meio da corrida presidencial.

Endogeneidade 1O gráfico apresenta diversas características que merecem uma discussão mais profunda, mas não me deterei nelas agora: (i) os três principais candidatos receberam, juntos, mais de R$ 830 milhões de empresas na eleição de 2014; (ii) pela primeira vez desde 2002 o Presidente eleito não recebeu mais doações do que o segundo colocado (Aécio arrecadou mais que Dilma); e (iii) os dados do TSE revelam um aumento não desprezível nas doações no mês seguinte às eleições (dívidas de campanha? Informações incorretas prestadas pelos partidos?).

Analisando o gráfico acima, notamos algumas tendências que permitem acreditar no ponto levantado pelo Badaró: a evolução das doações para os três candidatos parece refletir a expectativa que os doadores tiveram sobre quem tinha mais chances de vencer a eleição.

No próximo gráfico isso fica mais claro, na medida em que plotamos a dinâmica das doações de campanha (expressas nas linhas referentes a cada candidato, com magnitude definida no eixo vertical da esquerda) e os resultados das pesquisas eleitorais do Datafolha ao longo do primeiro turno (expressas nas colunas, em que cada cor representa um candidato, com os respectivos percentuais de intenção de voto).

Endogeneidade 2

Analisando o gráfico acima percebemos três momentos bastante distintos no desenrolar da disputa eleitoral, que tiveram reflexo direto no volume de recursos aportado pelas empresas em cada candidato.

O primeiro grande divisor de águas desta eleição foi o trágico acidente que resultou na morte de Eduardo Campos em 10/08/2014. A partir daquele momento, o volume de recursos doados para Dilma Rousseff (em vermelho) e Aécio Neves (azul) se intensifica, aparentemente indicando que a disputa seria polarizada nesses dois concorrentes. Nota-se, inclusive, um crescimento expressivo de Dilma no final de agosto, talvez refletindo uma maior chance de que a eleição fosse resolvida em seu favor ainda no primeiro turno. Nesta fase, as doações para Marina Silva (em cinza), embora também crescentes, apresentam um comportamento bem mais suave.

Essa tendência se altera à medida em que as pesquisas eleitorais revelam um crescimento surpreendente nas intenções de voto para Marina Silva a partir do final de agosto e início de setembro, quando a candidata do PSB chegou a ficar apenas um ponto percentual abaixo de Dilma Rousseff. Neste ponto as doações para Marina Silva começam a crescer num ritmo bem mais intenso, assim como as destinadas a Aécio Neves – refletindo a grande perspectiva de ocorrência de um segundo turno, em que os dois oponentes poderiam eventualmente se unir para tentar derrotar Dilma Rousseff, a candidata da situação.

Em fins de setembro, às vésperas do primeiro turno, temos então o terceiro grande momento da eleição: as pesquisas começam a indicar que Marina Silva perdia força, porém sem um crescimento proporcional de Aécio Neves. Neste cenário incerto da reta final, as doações para todos os candidatos subiram nas duas semanas que antecederam o primeiro turno. Porém, como as perspectivas de existência de um segundo turno começaram a ficar sombrias, as doações para Dilma Rousseff ganharam grande impulso, ultrapassando até mesmo as contribuições privadas para Aécio Neves.

A história em três atos descrita acima reforça a impressão de que o raciocínio do Rodrigo Badaró faz todo o sentido – pelo menos nas eleições presidenciais de 2014. O financiamento das campanhas de Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva parece ser bastante responsivo às perspectivas de vitória e de realização de um segundo turno à medida em que as pesquisas de opinião repercutiam as mudanças de humor do eleitorado durante a disputa eleitoral.

Essa evidência de que não apenas o financiamento privado pode influenciar as eleições, mas o resultado das eleições pode fazer com que o dinheiro das empresas seja direcionado deste para aquele candidato de acordo com suas chances de vitória, revela outro lado negro de nosso sistema “democrático”. Afinal de contas, é de se duvidar que a maioria dessas empresas, ao investirem mais de R$ 830 milhões em três candidatos, o faça apenas por ideologia. As variações no fluxo de doações para os candidatos ao sabor das pesquisas eleitorais indicam que possa haver um interesse concreto em estar do lado do time vencedor – seja ele qual for.



 

Nota 1: Como essas análises são reflexões ainda preliminares sobre achados da pesquisa de tese (veja as explicações aqui), seus comentários, críticas e sugestões são muito bem vindos, pois certamente vão contribuir para melhorar a qualidade da pesquisa.

Nota 2: Todos os dados acima são de elaboração própria a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Dado o caráter preliminar da pesquisa, solicita-se não citá-los sem autorização do autor.

 

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Ser o primeiro entre os últimos ou o último entre os primeiros? Novas evidências sobre a relação entre contribuições de campanha e o resultado das eleições

Comparação entre os eleitos com menos votos e os derrotados com mais votos revela que na maioria dos casos as doações de campanha podem ser determinantes no resultado da eleição.

Tendência foi observada nas eleições para a Câmara e o Senado de 2002 a 2014.

O objetivo principal de divulgar neste blog os resultados preliminares da minha tese é colher críticas e sugestões que podem aprimorar a pesquisa antes de submetê-la à banca de examinadores. Esta postagem é um exemplo de como já estou colhendo os frutos dessa ideia.

Há seis meses, publiquei um texto comparando as médias dos valores arrecadados pelos candidatos vencedores e derrotados nas eleições de 2002 a 2014 (aqui). À época, recebi duas sugestões preciosas: o colega Angelo Duarte comentou que comparar as médias de doações não seria o ideal devido ao grande número de candidatos pouco competitivos. Além disso, a comparação nos cargos de deputado federal e estadual poderia estar comprometida pelas votações das legendas.

Na mesma linha de raciocínio, meu ex-chefe Marcos Lisboa me sugeriu comparar as doações de campanha somente entre aqueles candidatos que ficaram na margem entre ser eleitos e não eleitos. Nas suas palavras: “Pode ser que a doação seja função da possiblidade de vitória. Francos favoritos ou perdedores óbvios recebem proporcionalmente às suas chances ex ante. Seria interessante saber o que acontece no meio do caminho. O grupo em princípio embolado. Será que nesse grupo as doações fazem diferença?

A proposta do Marcos de pesquisar a diferença de doações recebidas entre aqueles que se elegeram com o menor número de votos (os “últimos dos primeiros”) e aqueles que ficaram como primeiros excedentes (os “primeiros dos últimos”) seria a solução para resolver os problemas colocados pelo Ângelo. Dessa forma, seria mais fácil captar a influência do montante arrecadado nas eleições, uma vez que levam-se em conta apenas os candidatos que ficaram na margem entre ser eleitos ou não.

Tomando em consideração os objetivos da pesquisa, concentrei a análise nas eleições para os cargos de senador e deputado federal nas eleições de 2002 a 2014. Em ambas, é necessário levar em conta algumas peculiaridades, tendo em vista se tratar de eleições completamente distintas.

No caso da eleição para senador, trata-se de um pleito majoritário, em que é eleito o candidato mais votado em termos absolutos em cada unidade da federação brasileira. Neste caso bastaria comparar as doações do candidato eleito com o recebido pelo candidato derrotado que obteve mais votos. No entanto, é preciso ter em mente que, de acordo com o art. 46 da Constituição brasileira, os três postos de senadores de cada Estado (incluindo o Distrito Federal) são substituídos de maneira alternada: numa eleição elege-se um senador, e quatro anos depois são eleitos outros dois. Logo, o teste para verificar a influência das doações de campanha na margem comparou o primeiro colocado (eleito) e o segundo (não eleito) nas eleições de 2006 e 2014 e o segundo (eleito com menos votos) e o terceiro (não eleito) nos pleitos de 2002 e 2010.

No gráfico abaixo computei o percentual de situações em que o senador eleito em primeiro lugar (nas eleições de 2006 e 2014) ou em segundo lugar (em 2002 e 2010) recebeu mais doações do que o candidato derrotado com maior doação.

Marcos 1

Percentual de situações em que o senador eleito recebeu mais doações de campanha do que o candidato derrotado com mais votos nas eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014.

Fonte: Elaboração própria a partir de informações do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.

Na primeira série de quatro colunas do gráfico anterior, o teste é realizado levando em conta as doações totais recebidas pelos dois candidatos em questão. Nela, vê-se que o percentual em que o candidato eleito é também o candidato que mais arrecadou recursos na campanha passa de 55,6% em 2002 para 70,4% em 2014. Essa dinâmica também se verifica quando levamos em conta apenas as doações provenientes de pessoas jurídicas. Como pode ser visto na segunda série de colunas, se em 2002 apenas 40,7% dos vencedores receberam mais contribuições privadas do que os vencidos, em 2014 esse percentual chegou a 59,3%.Em ambos os casos, portanto, na maioria dos casos aquele que arrecadou mais recursos (no geral ou apenas de empresas) consegue ser eleito – e a frequência com que isto acontece aumenta a cada eleição.

Para realizar esse mesmo teste com os deputados federais, temos que considerar que se trata de uma eleição proporcional, realizada no âmbito de cada unidade da federação. Pelas regras estabelecidas nos arts. 105 a 112 da Lei nº 4.737/1965 (Código Eleitoral), a escolha dos ocupantes das cadeiras de deputados em cada Estado depende do total de votos obtidos por cada partido ou coligação (“quociente partidário”) e da votação individual dos candidatos em cada partido ou coligação. Sendo assim, temos duas disputas distintas sendo realizadas ao mesmo tempo: uma entre os partidos/coligações – que determina a quantas cadeiras cada agremiação terá direito – e outra entre os candidatos de cada partido/coligação – para estabelecer quem terá assento nessas cadeiras. Para captar a influência das doações no resultado da eleição, portanto, considerei que dentro de cada coligação (ou do partido, quando ele decidiu não se coligar) há uma eleição diferente, em que são eleitos os candidatos mais votados de acordo com o número das cadeiras assegurado no quociente partidário.

Partindo desse princípio, comparei as doações recebidas pelo deputado eleito com menos votos (o “último dos primeiros”) com aquelas auferidas pelo primeiro suplente (o “primeiro dos últimos”) em cada coligação/partido de todos os Estados e do Distrito Federal. Os dados estão consolidados no gráfico abaixo.

Marcos 2

Percentual de situações em que o deputado federal eleito com menos votos recebeu mais doações de campanha do que o primeiro suplente da sua coligação/partido nas eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014.

Fonte: Elaboração própria a partir de informações do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.

Embora os resultados com os deputados sejam um pouco menos expressivos do que o verificado com os senadores, observamos que as doações totais recebidas pelos vencedores são maiores do que as dos perdedores (primeiros suplentes) em torno de 60% dos casos nas eleições para a Câmara dos Deputados. E no que tange às doações recebidas de pessoas jurídicas, percebemos que nos dois últimos pleitos os recursos privados passaram a ser mais expressivos para os candidatos que se elegeram em relação aos que ficaram na suplência – em torno de 55% dos casos.

Esses resultados corroboram, portanto, as evidências apresentadas anteriormente de que o dinheiro das campanhas passa a ter importância crescente no resultado das eleições.

Na próxima postagem espero trazer novas evidências sobre essa dinâmica, seguindo a trilha indicada por Ângelo Duarte e Marcos Lisboa, a quem agradeço publicamente pelas críticas construtivas.



 

Nota 1: Como essas análises são reflexões ainda preliminares sobre achados da pesquisa de tese (veja as explicações aqui), seus comentários, críticas e sugestões são muito bem vindos, pois certamente vão contribuir para melhorar a qualidade da pesquisa.

Nota 2: Todos os dados acima são de elaboração própria a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Dado o caráter preliminar da pesquisa, solicita-se não citá-los sem autorização do autor.

 

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PL da Terceirização: Quem Votou “Sim” e Quem Votou “Não” – Um Exercício de Análise de Dados do Sistema Político Brasileiro

O Brasil vive momentos interessantes de debates políticos desde, pelo menos, as manifestações de junho de 2013. Os protestos contra os gastos com a Copa generalizaram para uma manifestação “contra tudo o que está aí”, em seguida tivemos a eleição presidencial mais disputada dos últimos tempos e, agora em 2015, vivemos tempos de protestos contra a corrupção, pedidos de impeachment ou renúncia da Presidente da República. Concordemos ou não com a pauta ou o posicionamento sobre cada um dos temas, é inegável que isto é extremamente salutar para a democracia.

A última polêmica envolve o PL 4.330/2004, que amplia as hipóteses de terceirização da mão-de-obra no país. A possibilidade de flexibilizar as relações trabalhistas tem polarizado opiniões, foi alvo de passeatas em diversos Estados e promete agitar o ambiente político na próxima semana, quando serão votados na Câmara os destaques (pedidos de votação em separado de dispositivos ao PL) ao Substitutivo.

Aproveitando a polêmica e como forma de exemplificar o que eu pretendo fazer nas próximas semanas na minha tese, procurei realizar uns testes estatísticos para verificar uma das hipóteses centrais da minha pesquisa (a de que a legislação aprovada pelo Congresso é influenciada pelos interesses de grupos específicos).

No caso da terceirização, parti das seguintes perguntas: Deputados que receberam mais contribuições de campanha de empresas votaram predominantemente “sim” ao PL da terceirização? E, de modo inverso, deputados que receberam menos doações de empresas votaram predominantemente “não”?

Para verificar se essas suspeitas procedem, resolvi seguir a sugestão do colega Ângelo Duarte, deixar aflorar o meu lado economista e usar um pouco de estatística básica para testar as hipóteses acima.

O primeiro passo foi cruzar os dados do painel de votação do PL, das doações de campanha recebidas por cada deputado e da natureza do doador (se pessoa física, pessoa jurídica, ou partido político/comitê/diretório/outros candidatos – thanks, Mr. Klauss Henry Oliveira Nogueira!). O resultado está na longa tabela abaixo, que lista quem votou, como votou e os valores recebidos na campanha por tipo de financiador.

Terceirização

Para testar as hipóteses, tomei duas variáveis indicativas: (i) o valor total das doações privadas recebidas e (ii) o percentual das doações privadas sobre o total arrecadado por cada deputado.

Primeiro teste: a média do valor das doações de empresas privadas a deputados que votaram “sim à tercerização” é estatisticamente superior à doações privadas recebidas por todos os deputados votantes?

O resultado dos testes foi estatisticamente significativo (a 99%) quando tomei como variável o valor médio das doações privadas (R$ 458.371 em média para o total de deputados, R$ 514.392 para os deputados que votaram “sim” ao PL). Porém, o resultado não foi relevante quando analisei o percentual das doações privadas sobre o total arrecadado (30,18% para todos os deputados, 32,13% para os deputados que votaram “sim”).

Segundo teste: a média do valor das doações de empresas privadas a deputados que votaram “não à tercerização” é estatisticamente inferior à doações privadas recebidas por todos os deputados votantes?

Nesse caso tivemos um resultado contrário ao anterior: O resultado foi estatisticamente significativo (a 95%) quando tomei como variável o percentual das doações privadas sobre o total arrecadado (30,18% para todos os deputados, 25,59% para os deputados que votaram “não”), mas não foi relevante para o valor médio das doações privadas (R$ 458.371 em média para o total de deputados, R$ 332.215 para os deputados que votaram “não” ao PL).

Resumindo a estatística dos parágrafos acima: os resultados parecem indicar que os votos dos deputados quanto ao PL da terceirização estão relacionados às doações privadas recebidas pelos deputados. Porém, não podemos afirmar categoricamente isso, pois alguns resultados não foram estatisticamente comprovados.

Uma possível explicação para esse resultado está no comportamento dos partidos, por duas razões principais, a meu ver.

A primeira delas é que a possibilidade, existente na legislação brasileira, de as empresas e pessoas físicas doarem para os partidos, comitês e diretórios, em vez de sempre doarem diretamente para os candidatos, mascara parte dos resultados. Conforme alertaram o Anderson Moraes e a Adriana Torres em comentários às minhas postagens anteriores, as doações ocultas prejudicam a fiscalização das escolhas dos doadores e dos eleitos e prejudica a democracia. No nosso exemplo, boa parte das doações classificadas como de partidos e cia. vêm de empresas, e não do Fundo Partidário.

A segunda possível explicação para um resultado não tão robusto para os testes de hipóteses está no posicionamento dos partidos em relação aos PLs e na surpreendente alta taxa de fidelidade dos deputados à orientação de seus partidos. Como pode ser visto na tabela abaixo, 3 partidos se posicionaram contra o PL 4.330/2004 (PT, PC do B e PSOL), enquanto 15 partidos são favoráveis à flexibilização da terceirização (PSDB, DEM, PMDB, PSB, PV, PSD, PR, PDT, SD, PPS, PP, PTB, PSC, PHS e PEN). Os demais partidos liberaram seus correligionários para votar segundo sua própria consciência.

Fidelidade

Nessa votação em especial, a taxa de fidelidade dos deputados à orientação de seus partidos foi em média de 80%. Na minha opinião, independentemente do mérito da questão, esse comportamento foi bastante louvável. Afinal de contas, vivemos reclamando de que os partidos no Brasil não são programáticos e não mantêm um comportamento uniforme de seus membros nas votações. No PL da terceirização, isso não aconteceu.

Como conclusão, acho que a lição que se extrai desses dados é que, em vez de demonizarmos os deputados que, individualmente, votaram contra ou a favor de determinado projeto, devemos exigir dos partidos políticos um posicionamento claro e embasado a respeito dos temas em pauta.



 

 

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