Ricos, famosos e poderosos: uma análise sobre Trumps, Dorias e (quem sabe?) Justus

Número de candidatos novatos e milionários cresce a cada eleição e pode virar tendência após o sucesso de Trump e Doria

Texto e gráficos de Bruno Carazza dos Santos

Imagem em destaque de André Burian

De acordo com a revista Forbes, Donald Trump tem uma fortuna estimada em US$ 3,7 bilhões – está na 324ª posição entre as pessoas mais ricas do mundo. Celebridade televisiva, nunca havia disputado eleições e acabou de tomar posse como Presidente dos EUA.

Embora não esteja no grupo dos bilionários (o patrimônio pessoal declarado ao TSE foi de R$ 107 milhões), João Doria Júnior também não havia disputado qualquer eleição antes de se tornar o prefeito da maior cidade do país, 7ª mais populosa do mundo. Assim como Trump, seu passado como apresentador de TV e sua imagem de “empresário de sucesso” (ainda que construído pela sua proximidade ao poder político e econômico) contaram para vencer ainda no primeiro turno.

A coincidência temporal e de perfil das vitórias de Trump nos EUA e Doria em SP levou muita gente a se questionar se passaremos a ser governados por ricos e famosos. Afinal, o discurso “apolítico” de empresários e executivos está mesmo ganhando corações e mentes dos eleitores no Brasil e mundo afora?

Diante dessas dúvidas, resolvi analisar os dados para verificar se há uma tendência de envolvimento crescente de candidatos sem experiência política e muito ricos nas últimas eleições municipais para prefeito. Foquei a pesquisa apenas nos municípios para ter uma visão melhor do que acontece no interior do país, por ser a eleição mais recente (e, também, a primeira realizada sem a influência das doações de campanha feitas pelas empresas) e também porque, segundo os cientistas políticos, os pleitos municipais são uma boa prévia para se imaginar o que acontecerá nas eleições gerais, realizadas dois anos depois.

Também fiz alguns recortes para tornar a pesquisa mais fácil e objetiva.

Primeiro, tive que me ater apenas às eleições de 2008, 2012 e 2016, pois só para elas há informações sobre o patrimônio declarado pelos candidatos. Além disso, limitei a análise aos municípios que possuíam mais de 100.000 eleitores em 2016. Apesar de serem apenas 192 municípios, eles concentram 47,9% de todo o eleitorado brasileiro e estão distribuídos por todos os 26 Estados (o DF não tem eleições municipais). Trata-se de uma amostra bastante representativa, portanto.

Finalmente, escolhi como critério para definir o que constitui um candidato “rico” possuir patrimônio pessoal declarado (atenção, o TSE não exige fidedignidade com a declaração de imposto de renda, infelizmente!) de pelo menos R$ 5 milhões – um valor inatingível para a imensa maioria dos brasileiros.

Feitas as observações sobre o universo da pesquisa, vamos aos dados.

Analisando as informações disponibilizadas pelo TSE, observamos que há um nítido crescimento tanto de candidatos ricos, quanto de candidatos sem prévia participação em eleições desde 2008 – ver gráfico abaixo.

Novatos e Milionários 1

Como quantidade não quer dizer qualidade, é importante atentar para a taxa de sucesso desses candidatos – ou seja, qual o percentual de novatos e de milionários que conseguiram efetivamente se tornar prefeitos. Observando os dados, verifquei que a vida não é muito fácil para os candidatos sem experiência eleitoral prévia. A taxa de sucesso deles é bem inferior à média. Pelo lado dos candidatos ricos, porém, a coisa muda de figura: nas últimas três eleições municipais, de cada dez candidatos com patrimônio superior a R$ 5 milhões, entre 3 e 4 conseguiram se eleger, uma taxa bem superior à média de todos os candidatos.

 Novatos e Milionários 2

Além de terem uma maior probabilidade de sucesso, os candidatos milionários também estão se espalhando pelo Brasil, conforme pode ser visto nos mapas abaixo. Pode-se perceber que o número de municípios com candidaturas de pessoas com mais de R$ 5 milhões cresce a cada eleição, principalmente pelo interior do país [clique em “Tela cheia” para ver o mapa com mais detalhes sobre os candidatos milionários em cada município e seu patrimônio declarado, selecionado o ano da eleição no filtro no canto superior direito] .

A essa altura da discussão, você deve estar se perguntando: ok, o número de candidatos novatos e o de milionários está crescendo, sendo que os mais ricos têm maior chance de ser eleitos, mas o que podemos dizer dos candidatos que são, ao mesmo tempo, novatos E muito ricos, como é o caso de nossos paradigmas Trump e Doria?

A partir dos dados divulgados pela Justiça Eleitoral, o primeiro ponto a se observar é que não são muitos os casos que satisfazem a essas duas condições. Candidatos sem experiência eleitoral anterior e com patrimônio superior a R$ 5 milhões foram apenas 6 em 2008, 13 em 2012 e 12 nas últimas eleições de 2016. Desses, apenas 7 foram eleitos, a saber:

  • Márcio Lacerda (Belo Horizonte/MG) e Ivan Rodrigues (São José dos Pinhais/PR) em 2008. Márcio Lacerda foi reeleito em 2012, Ivan Rodrigues não;

  • Udo Dohler (Joinville/SC) e Carlos Amastha (Palmas/TO) em 2012. Ambos foram reeleitos em 2016; e

  • Hildon (Porto Velho/RO), Antídio Lunelli (Jaraguá/SC) e João Dória (São Paulo/SP) em 2016.

O baixo número de evidências de que milionários autodenominados “apolíticos” estejam se candidatando e vencendo eleições no Brasil seria, portanto, um sinal de o caso Doria é exceção no cenário político brasileiro? Pelos dados das três eleições municipais anteriores, sim: em 2016, das 192 maiores prefeituras do país, apenas 3 foram vencidas por estreantes milionários.

Isso quer dizer então que é pouco provável que tenhamos outros Dorias nas eleições futuras, a começar pelas eleições para governador e presidente em 2018? Aí eu tenho minhas dúvidas, e explico meus motivos.

Em primeiro lugar, as doações de empresas estão proibidas e o fantasma da Lava Jato pode estar inibindo o caixa dois pelo menos no curto prazo. Isso quer dizer que, a menos que o nosso Congresso aprove uma PEC readmitindo as contribuições empresariais (tudo é possível atualmente), os partidos terão um grande incentivo a cooptar candidatos “com bala na agulha” para bancar, do próprio bolso, boa parte dos gastos de sua campanha.

Além disso, o efeito dos escândalos de corrupção tem sido devastador sobre a imagem dos partidos e os políticos em geral. Dê uma olhada no gráfico abaixo, elaborado com base em pesquisa conduzida pela Escola de Direito da FGV de São Paulo, para ver como a confiança do cidadão nas principais instituições políticas no Brasil – Presidência da República, Congresso Nacional e partidos políticos está na lona. Neste contexto, candidatos que tenham uma retórica no melhor estilo Trump, louvando seu sucesso empresarial, podem ganhar terreno (e votos) Brasil afora.

Confiança

Por fim, a Lava Jato. Seu efeito esperado sobre os caciques (tradicionais e emergentes) dos principais partidos brasileiros (PT, PSDB, PMDB, DEM e cia) pode criar um vácuo de poder nas estruturas partidárias e na memória do eleitorado que abre caminho para candidatos que se auto-proclamem “apolíticos”, “grandes gestores” ou “líderes de sucesso no setor privado que levarão sua experiência para o setor público”.

 

Não por acaso, todos esses elementos estão na “carta à nação” publicada na Folha de São Paulo de 29/01/2017 por Roberto Justus. Declinando de antemão um convite que não foi sequer feito, o empresário e apresentador de TV sinaliza que pretende ser cortejado – seja pelo eleitor, seja por algum partido que lhe dê carta branca – para ser candidato a Presidente da República em 2018. Na sua negativa-afirmativa (ser ou não ser?) ele apresenta vários elementos desse roteiro do candidato apolítico e empresário de sucesso que deu certo com Trump e Doria:

  • A aversão ao modo tradicional de fazer política: “Sou transparente e espontâneo até demais. Falo o que penso. Não tenho apetite por engolir sapos ou disposição para abrir mão do que acho certo. Não gosto de ‘jeitinho’ e conchavos”);
  • A crítica aos partidos tradicionais: “Hoje, para que um candidato fora do mundo político possa se eleger, ainda precisa se associar a partidos com grande estrutura que, muitas vezes, têm interesses diferentes dos que considero corretos ou prioritários. Além disso, precisa abrir mão de muitas convicções para aceitar as regras do jogo.”)
  • A autopromoção de seu sucesso como empresário: “Sou um empreendedor, passei a minha vida realizando projetos, motivando pessoas, alcançando objetivos, fazendo acontecer”;
  • O flerte com o populismo e o autoritarismo para “fazer as coisas acontecerem”: “E me angustia a possibilidade de me ver impedido de realizar um bom governo por causa da dependência de um Legislativo que demonstrou, em muitos casos, desacerto com os interesses da sociedade”;
  • E, finalmente, o recado de que a população não aguenta mais a classe política e quer uma alternativa a ela: “Felizmente as coisas estão mudando. Basta ver o recado das urnas em São Paulo: as pessoas querem gestores, gente sem passado político e com projetos capazes de trazer mais oportunidades”.

O roteiro para 2018 já está escrito. O que não vai faltar é aprendiz.

 

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Victor Nunes Leal: De Alvorada de Carangola às Eleições de 2016

Texto de Bruno Carazza dos Santos

Imagem de André Burian

Homenagem ao autor de “Coronelismo, Enxada e Votos” elaborada a convite para a Revista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais

Reza a lenda que Juscelino Kubitschek batizou o “Palácio da Alvorada” em homenagem a Victor Nunes Leal, que nasceu no distrito de Alvorada, em Carangola/MG, em 1914. Se a importância desse jurista mineiro já pode ser auferida por esse “causo” político, a mais alta corte do país não deixa nenhuma dúvida: o Supremo Tribunal Federal reverencia o grande relevo intelectual de Victor Nunes Leal não apenas ao nomear sua biblioteca, mas também ao colocar seu busto de bronze ao lado de grandes personalidades da História brasileira, como Dom Pedro I, Joaquim Nabuco, Barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Clóvis Beviláqua e Teixeira de Freitas.

Diversas sessões especiais de homenagens já foram realizadas – em fóruns como o Congresso Nacional, o STF e a OAB – para louvar o homem público, o advogado, o jornalista, o professor universitário e o Ministro do Supremo Tribunal Federal e Presidente do Tribunal Superior Eleitoral que foi arbitrariamente aposentado em 1969 após a edição do AI-5. Todos esses discursos, feitos por autoridades, contemporâneos e estudiosos, podem ser facilmente encontradas na internet e lançam diferentes olhares sobre a produtiva vida pública de Victor Nunes Leal, que se manteve atuante profissionalmente até seu falecimento, em 1985.

Para não correr os riscos de ser redundante ou de elaborar uma minibiografia de qualidade certamente inferior a tantas outras já realizadas sobre esse festejado jurista, pretendo concentrar-me apenas na sua obra maior. “Coronelismo, Enxada e Voto: o município e o regime representativo no Brasil” nasceu de uma tese desenvolvida para o concurso de professor da cadeira de Política na antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil em 1948. Publicada no ano seguinte, ela é considerada o primeiro trabalho moderno de ciência política produzido no Brasil.

O trabalho de Victor Nunes Leal é notável porque ele estuda um fenômeno específico – a influência política dos coronéis – como parte de um sistema nacional, abrangendo as relações federativas (União, Estados e municípios) e os três poderes da República. Para isso, ele utiliza com pioneirismo uma abordagem interdisciplinar, combinando fatores econômicos, políticos e sociais para analisar o tema. E o faz com uma abrangência de fontes metodológicas que ainda hoje é difícil de encontrar na academia brasileira: para desenvolver sua tese, Nunes Leal se vale de dados econômicos (como os censos agropecuário e populacional recém-publicados pelo IBGE), de uma revisão da legislação e da jurisprudência que parte desde o Brasil Colônia, uma profunda pesquisa da história legislativa (referindo-se a discursos, debates e resultados de votações registradas nos anuários do Congresso Nacional) e uma completa revisão da bibliografia publicada até então.

Outro ponto notável do livro vem do estilo do autor. Possivelmente lapidada no jornalismo – Victor Nunes Leal começou a trabalhar na imprensa ainda durante sua graduação em Direito –, sua escrita é absolutamente leve e livre da pompa, do rebuscamento e das expressões latinas que infelizmente ainda impregnam os textos jurídicos no Brasil.

Engana-se quem considere este trabalho de Victor Nunes Leal uma obra sobre um tópico pontual da História brasileira. Trata-se de um estudo fenomenal sobre as relações de poder no Brasil, que partem do plano federal ao local, e envolvem as elites política e econômica. Na base de sua teoria, Victor Nunes Leal situa a pobreza e a falta de educação de nossa população, que é levada a legitimar o regime por meio de um sistema eleitoral pouco representativo, em que os partidos políticos pouco dizem para o povo em termos de postura ideológica e propostas concretas de melhorias substanciais de vida.

Sob esse prisma, é impossível não reconhecer como o Brasil de 2016 ainda ressoa ao cenário da primeira República analisado por Victor Nunes Leal em 1948. Apesar das grandes transformações socioeconômicas – a expansão urbana, a industrialização, a revolução nos meios de comunicação, a redução das taxas de analfabetismo –, nosso sistema político ainda funciona, em parte, na base do coronelismo. No Brasil de 2016, as normas e as políticas públicas que afetam a população são produzidas por um sistema de relações entre as esferas federal e estadual e sua dimensão local, envolvendo liberação de recursos orçamentários, convênios, fidelidade nas votações e “dobradinhas” nas eleições, além de distribuição de doações de campanha e recursos do Fundo Partidário – enfim, uma lógica bastante similar àquela descrita por Victor Nunes Leal.

Em muitas regiões do interior do país o poder ainda é exercido por netos e bisnetos dos velhos coronéis descritos por Victor Nunes Leal – embora muitos tenham mudado de fazendeiros para empresários do agronegócio. Mas mesmo nos maiores centros urbanos, o jogo político ainda é dominado por líderes locais que exercem sua influência sobre o eleitorado e se inserem num sistema definido no plano federal. Os novos coronéis do século XXI são políticos profissionais, empresários, comunicadores, celebridades e líderes religiosos que continuam as velhas práticas do “toma lá, dá cá”, da distribuição de benesses em troca de votos nas eleições, da inauguração de obras inacabadas, das promessas não cumpridas, das técnicas de intimidação, do beija mão do governador e do Presidente da República em troca de recursos para asfaltar uma estrada que às vezes nem é a principal carência da sua localidade.

Neste ano teremos eleições para prefeitos e vereadores nos 5.570 municípios brasileiros. Sem nenhuma mudança radical na estrutura de distribuição de renda ou no sistema de representação político-partidária, é fácil identificar que o sistema de poder descrito por Victor Nunes Leal prevalece entre nós. E, infelizmente, grande parte dos 144.088.912 eleitores brasileiros trocaremos nosso voto em gratidão ou na esperança de receber migalhas de direitos dos governantes eleitos: um reforço de segurança no bairro, uma ambulância para levar a uma consulta na capital, uma rua asfaltada ou até, quem sabe, a promessa de um cargo comissionado no gabinete do futuro prefeito… Quase setenta anos depois de publicado o livro de Victor Nunes Leal, nós brasileiros continuamos na enxada, garantindo votos para os velhos e novos coronéis.

Nota: A íntegra da Revista do TCE/MG pode ser consultada aquiAgradeço a Denise Mariano de Paula, Coordenadora da Revista, pelo convite para escrever o texto. 

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